Na correria entre o diagnóstico e o início do tratamento, uma pergunta costuma ficar para depois: e se eu quiser engravidar? O problema é que algumas respostas só existem antes do primeiro ciclo.
A quimioterapia pode reduzir a reserva dos ovários e, em parte das mulheres, antecipar a menopausa. O risco depende da idade, do esquema e das doses. Nem toda mulher terá esse efeito, mas não dá para saber de antemão quem terá.
O que as diretrizes recomendam
A diretriz da ASCO de 2018 sobre preservação da fertilidade pede que a equipe converse sobre o risco à fertilidade o mais cedo possível, antes do início do tratamento, e encaminhe quem tiver interesse a um especialista em reprodução. A diretriz europeia (ESMO), de 2020, vai na mesma direção e diz que a gravidez depois do câncer de mama não deve ser desencorajada.
Congelar embriões e congelar óvulos são práticas estabelecidas. O congelamento de tecido ovariano existe em centros específicos; na diretriz de 2018, ainda era tratado como uma técnica em evolução.
Quanto tempo leva
A estimulação dos ovários para congelar óvulos ou embriões leva cerca de duas semanas. Para mulheres com câncer de mama, há protocolos que podem começar em qualquer fase do ciclo menstrual e que associam remédios para manter o estrogênio mais baixo durante o processo.
Se esse intervalo cabe antes do tratamento sem prejudicá-lo é uma decisão da equipe, caso a caso. Por isso a conversa precisa vir cedo: quanto antes ela acontece, mais opções sobram.
E o remédio que protege os ovários?
Os análogos de GnRH, como a gosserrelina, colocam os ovários em repouso durante a quimioterapia. A diretriz da ASCO diz que eles podem ser oferecidos a mulheres jovens com câncer de mama para reduzir a chance de falência ovariana causada pela quimioterapia, mas não substituem o congelamento de óvulos ou embriões quando ele é possível, porque a evidência sobre gravidez futura é menos clara.
Engravidar depois: o estudo POSITIVE
Uma dúvida comum de quem tem tumor receptor hormonal positivo é se pausar a hormonioterapia para engravidar aumenta o risco de o câncer voltar. O estudo POSITIVE, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, acompanhou 516 mulheres de até 42 anos que pausaram a hormonioterapia por até dois anos, depois de 18 a 30 meses de tratamento, para tentar engravidar.
Em três anos, 8,9% tiveram um evento de câncer de mama, contra 9,2% num grupo externo de comparação que não pausou. Das 497 acompanhadas quanto à gravidez, 74% engravidaram ao menos uma vez e 64% tiveram ao menos um bebê nascido vivo.
Os autores ressaltam que o seguimento ainda é curto, porque esse tipo de tumor pode voltar muitos anos depois, e o estudo continua. O resultado permite uma conversa informada com a equipe; não diz o que vale para o seu caso.
No Brasil
O meu esquema tem risco para a fertilidade? Dá tempo de congelar óvulos ou embriões sem atrasar o tratamento? O análogo de GnRH faz sentido para mim? Para qual especialista em reprodução posso ser encaminhada?
Vale perguntar à equipe e ao serviço social quais caminhos existem na sua região para congelar óvulos ou embriões.
Fontes
- Oktay K, et al. Fertility Preservation in Patients With Cancer: ASCO Clinical Practice Guideline Update — Journal of Clinical Oncology, 2018
- Lambertini M, et al. Fertility preservation and post-treatment pregnancies in post-pubertal cancer patients: ESMO Clinical Practice Guidelines — Annals of Oncology, 2020
- Partridge AH, et al. Interrupting Endocrine Therapy to Attempt Pregnancy after Breast Cancer — New England Journal of Medicine, 2023
- International study shows many younger women with breast cancer can safely have a baby — Dana-Farber Cancer Institute
Conteúdo informativo, produzido a partir de estudos e documentos públicos citados em cada artigo. Não substitui orientação, diagnóstico ou conduta de profissionais de saúde — resultados de pesquisa descrevem populações estudadas, não o seu caso. Converse sempre com sua equipe assistencial antes de qualquer decisão sobre o tratamento.
